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CALTON, ACIMA DAQUELA ESPOSA!

Ainda hoje rio-me a bandeiras despregadas quando me lembro de uma das mil e uma histórias que a fama do goleador Calton Banze produziu ao longo das décadas em que o super médio-ofensivo deliciou os amantes do futebol, em particular os adeptos do Desportivo.

Na verdade, Calton era… “um gajo do caraças”! Um craque na verdadeira acepção do termo, que  tinha lugar em qualquer equipa do mundo. Isso mesmo. Eu disse do mundo! Só faltou-lhe uma oportunidade no momento certo. Foi revoltante que essa oportunidade tenha acontecido quando ele tinha acima dos trinta anos, quando o Sporting CP lhe abriu as portas, praticamente em finais de carreira.

A Europa perdeu, digamos sem qualquer exagero, uma grande oportunidade de ovacionar um médio com qualidades incríveis, que podia ter reforçado a convicção de que Moçambique é uma fonte inesgotável de talentos e que o futebol de classe não tinha terminado com as reformas de Matateu, Vicente Lucas, Coluna, Eusébio, Hilário da Conceição, João Carlos, Manhiça (o 115), Matine e outros que fizeram furor no Sporting, Benfica, Porto, Belenenses e na Selecção das Quinas, que encantou o Mundo em 1966.

O baixinho, que dada a sua estatura também ficou conhecido com a alcunha de “EXPORTAÇÃO”, era fenomenal. Ganhou duelos com os melhores guarda-redes da época, Nuro Americano (Maxaquene) e Zé Luís (Textáfrica). Fez história com os seus pés, ele que tanto marcava golos com o pé direito, como o faria com a mesma eficácia com o pé esquerdo.

Quem não se lembra daquele golo que marcou na Maxixe, anulado pelo árbitro, alegando que o remate foi desumanamente violento e era um atentado contra a vida do guarda-redes do Nova Aliança? Quem não se lembra daquele monumental golo ao Taffarel, lendário “keeper” do Brasil, num Moçambique-Brasil, em veteranos, no Estádio da Machava, que levantou a plateia e deixou os adversários boquiabertos? 

São muitas as histórias sobre Calton, recheadas de fronteiras flutuantes entre a realidade e ficção. A que hoje levou-me a “pegar na caneta” e rabiscar estas linhas foi um episódio que teve como principal protagonista um adepto ferrenho do Desportivo de Maputo, ou melhor, de Calton Banze, que em certo clássico Desportivo-Maxaquene preferiu colocar a sua esposa em segundo plano, porque, para si, o mais importante era ver o seu ídolo a fazer das suas em campo.

O jogo prometia muito e nesse dia a esposa do nosso glorioso adepto recebeu ordens para aprontar o almoço o mais rápido possível, porque era sempre prudente chegar a tempo, para evitar guerrear por um bom lugar no estádio, porque, naturalmente, previa-se muita enchente. As batalhas entre esses dois vizinhos sempre arrastaram multidões.

A senhora, submissa, anuiu às ordens do patrão. Cumpriu-as à risca, para evitar barulho de consequências imprevisíveis. Antes das 12.00 horas, duas terrinas de um amarelo pálido, decoradas com flores lilás, uma com xima e outra com suculentos nacos de carne de vaca em carril de amendoim, já estavam em cima da mesa, para gáudio do fã de Calton Banze, que almoçou e recebeu um beijo de despedida.

“Boa sorte!”, disse ela, por último, com um sorriso gaiato e a puxar a alça da combinação, para esconder um seio malandro, propositadamente à mostra.

Trajado a rigor, agradeceu a atenção da esposa e despediu-se. Como sempre, lançou aquele assobio estridente, um código que só ele e o seu amigo (e vizinho!) sabiam decifrar. Mas está claro que entre outros significados era um aviso de estar na hora de irem ver mais um imperdível Desportivo-Maxaquene.

Chegaram ao campo com duas horas de antecedência. Por essas alturas o estádio já estava com uma boa moldura humana. É que naquele tempo, anos 80, o futebol ainda era o verdadeiro ópio do povo. Não havia facilidade de transporte como hoje, mas mesmo assim a paixão pelo futebol arrastava multidões aos campos, que andavam abarrotados.

Conversa puxou conversa, com os dois amigos a lembrarem-se de várias histórias que enriqueciam as memórias do clássico. Com o rádio colado aos ouvidos iam acompanhando a Emissora Interprovincial de Maputo e Gaza, que na sua antevisão, na voz do saudoso Vieira Manala, aguçava a ânsia dos adeptos.

A páginas tantas o amigo do fã de Calton anuncia que se esquecera de algo em casa e que devia dar uma fugidinha para resolver a questão. A casa era ali pertinho e voltaria antes do apito inicial, o que, de facto, aconteceu em tempo mais curto do que se esperava.

Só que ele volta de sobrolho franzido, e o amigo, apercebendo-se da mudança de humor, para pior, pergunta-lhe o que estaria a acontecer consigo.

“Sabe, amigo. É delicado e nem sei como começar”, respondeu.

“Diz logo, afinal somos amigos e, quem sabe, talvez tenha uma solução para a tua inquietação. Vá, diz”.

 “O mais grave é que é sobre ti”!

O amigo, já mais preocupado que antes, arrebitou as orelhas, arregaçou as ventas, tentando sentir o fedor do que vinha a seguir. E atacou:

“Chega de voltas. Pára com esse teu jogo de suspense e diz-me logo o que está a acontecer!”.

Entre soluços:

“É que”.. titubeou o amigo, munindo-se de fôlego para desembuchar.

E continuou:

 “É que quando cheguei à minha casa vi a tua esposa a entrar em casa com aquele teu ex-amigo que vos causou problemas. Confesso que aquilo cheirou-me mal. Muito mal mesmo”.

Inesperadamente, o fã de Calton respirou de alívio e até esboçou um sorriso estranho ao olhos do amigo e mesmo aos de outros circunstantes, que sem querer acabaram estando dentro do assunto.

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