O médio do Maxaquene Almeida Ubisse vai ser lembrado como um dos três jogadores com uma insaciável apetência para marcar golos de longe, fruto dos seus portentosos remates, tal como o faziam Calton Banze, médio do Desportivo de Maputo, e o falecido Luís Siquice, avançado do Costa do Sol. O pé direito de Almeida era, passe o exagero, um verdadeiro… trovão.

Enquanto os outros dois eram fisicamente bem constituídos, Almeida era o inverso. Longelíneo, com quase dois metros, o seu biótipo assentava mais para um jogador de basquetebol do que doutra modalidade, mas a verdade é que Almeida optou pelo futebol. E não escolheu mal.
Durante toda a década de 80 revelou-se um nato rematador à meia distância, especialista na marcação de livres. De corpo franzino e musculatura desprezível, era assombrador ver a força brutal com que os remates de Almeida partiam para o alvo, muitas vezes com sucesso, tanto no Ferroviário, como no Maxaquene e na Selecção Nacional.
Se recuarmos para o dia 19 de Abril de 1981 vamos ver um electrizante Moçambique-Zaire (hoje RD Congo), em pleno Estádio da Machava, a contar para a qualificação para o CAN-82, realizado na Líbia. Há um livre praticamente no meio-campo, bem próximo ao túnel. Almeida curvou o seu corpo esquelético, ajeitou a bola, puxou os curtos calções pretos de setim com barras laterais brancas e recuou uns passos. Nem se assustou com a fama do lendário guarda-redes Makwaya Nsiampansi. Seus olhos, que lembravam os de uma águia imperial ibérica, olharam para o alvo e viram algo que só ele podia ver. Arrancou em velocidade para a bola e dali saiu um petardo que, infelizmente, embateu no ferro. Felizmente, Cipriano Rabeca dos Santos (Nito), muito atento, não quis desperdiçar o esforço de Almeida e fez o resto: recargou para o golo. E o jogo terminaria empatado a 3-3.
“Tenho de reconhecer que o meu ponto forte era o remate com força e certeiro, sobretudo em lances de bola parada. Aquilo começou desde criança, no bairro da Malhangalene, onde vivia, perto da Praça de Touros. Sempre gostei de rematar de longe e a coisa continuou até quando me tornei federado”, afirma, a propósito.
Interessa recordar que o astuto dianteiro Cossa, um dos melhores marcadores da história do nosso futebol, apontou muitos golos à custa do pontapé-canhão de Almeida. Sabia que os guarda-redes dificilmente seguravam as bolas à primeira, pelo que andava atento para as respectivas recargas, que não foram poucas.
TORNEIO CANIÇO
COM… “BIG STARS”
Chama-se Almeida Albino Constantino Ubisse. Nasceu a 3 de Agosto de 1957. É filho primogénito do casal Albino Constantino Ubisse e Julieta Leão Rafael. Depois de Almeida nasceram Mariazinha, Cândido, ex-jogador do Orlando Pirates, equipa com a qual ganhou a Taça Bob Save Super Bowl, de 1988. Era mais conhecido como Mike “Lolipop” Mlhanga e acabou radicando-se na África do Sul. Os últimos irmãos eram Virgílio e Leonel, ambos falecidos.
Almeida descobre-se como jogador no seu bairro, algures nas bermas da Estrada Anguana, antigo nome da actual Avenida Milagre Mabote, no bairro da Malhangalene “A”. “Havia por ali muitos campos, onde brincava com os meus amigos de infância. Só que tinha um pai muito rigoroso e até às 17.00 horas tinha de estar em casa, todo limpo”.
Apesar da rigorosidade exigida pelo velho Albino, Almeida aproveitava ao máximo o tempo de brincadeira, a que tinha direito, e dava asas ao seu talento, deleitando muitas plateias com o seu pé descalço. Os pelados eram verdadeiras escolas de iniciação de muita garotada da periferia da grande cidade de cimento.
E porque em Moçambique sempre houve almas caridosas dispostas, que cuidavam dos petizes, o Banco de Crédito Comercial e Industrial (BCCI) ficou famoso pela organização do Torneio Caniço, um evento infanto-juvenil que movimentada crianças dos 14 aos 16 anos, em parceria com o Grupo Desportivo 1.o de Maio. Almeida, obviamente, era a estrela da sua equipa, os “Big Stars”.
“Em 1973 participei na segunda edição do Torneio Caniço”, diz Almeida, sorridente. Percebemos que lhe dava gozo trazer à memória aquele evento, que seria determinante para o resto da sua vida desportiva. “Eu jogava na equipa “Big Stars”, cujo dono, por sinal, era meu tio, o Sacadura”, acrescenta o nosso entrevistado.
Na equipa, Almeida jogou com amigos que não deram continuidade à prática do futebol. Lembra-se de poucos, mas não se esquece do João, que depois foi para a África do Sul”. Foi um bom torneio, que lançou muitos miúdos para o futebol federado, incluindo eu próprio”, conclui.
Na verdade, daí saíram muitos craques, casos de Cossa, Artur Semedo, Sitoe, Calton, Ramalho, Ramos, Cremildo, Mussá Osman, Amadinho, entre outros.